Aprender com os erros, yeah right

A cultura popular diz-nos que é com os erros que se aprende. Este ‘chavão’ foi agora questionado por um conjunto de neurocientistas  MIT’s Picower Institute for Learning and Memory que desenvolveram um modelo animal que põe por terra este lema que nos ajuda a todos (sniff…) nas horas mais difíceis.

Aprender - Modelo Experimental

O modelo é razoavelmente simples. Temos macacos e monitores. Os macacos foram treinados a desviar o olhar de acordo com a imagem (para a esquerda ou para a direita), sendo que apenas um dos lados conduzia a uma recompensa.

A monitorização em tempo real de células cerebrais a nível do cortéx pré-frontal (planeamento de acções) e núcleos basais (motricidade) revelou que quando os macacos desviavam o olhar para o lado correcto, obtendo portanto uma recompensa, a resposta destas células intensificava-se. Tal aumentava a taxa de sucesso do símio nas tarefas seguintes. Por outro lado, ao cometer um erro, não se verificou qualquer incremento na performance nas tarefas subsequentes.

(…) we report that single neurons in both areas show sustained, persistent outcome-related responses. Moreover, single behavioral outcomes influence future neural activity and behavior: behavioral responses are more often correct and single neurons more accurately discriminate between the possible responses when the previous response was correct.

Este é um processo genericamente designado por facilitação sináptica (maior ‘força’ de ligação entre dois neurónios). É uma maneira do nosso cérebro se adaptar ao meio ambiente, aprender com a experiência, apenas não com os erros 😉

via ScienceDaily

P.S – for what it’s worth, este artigo foi publicado na Neuron, uma revista de alto impacto da área, e, mais do que destruir a vossa auto-estima, contribuiu para um melhor conhecimento dos processos fisiológicos que regem a aprendizagem.

2 thoughts on “Aprender com os erros, yeah right”

  1. Então pelo que eu percebi o provérbio devia ser ao contrário: aprender com os sucessos (?)

  2. Neste caso, em macacos, numa experiência muito simples, em que a condição de sucesso era praticamente binária (só tens a hipótese de acertar ou errar basicamente, não há sucesso intermédio, parcial ou progressivo :P), o erro não trouxe um benefício ao processo de aprendizagem daquela tarefa.

    Obviamente que no ‘nosso mundo’, quando erramos, aprendemos com o erro (e também aprendemos com o sucesso, claro está) porque temos capacidade cognitiva de inferir uma correcção sobre os nossos actos, consciente ou subconsciente.

    Da mesma forma que quando aprendemos um desporto novo, vais ganhando o jeito de usar uma raquete ou chutar uma bola de forma inconsciente ou te esforças conscientemente para melhorar uma pronúncia duma língua estrangeira. São processos de aprendizagem fulcrais, até porque raramente acertamos alguma coisa à primeira 🙂

    Digamos que, e se calhar é algo que devia ter realçado mais no artigo, é que esta descoberta, embora constitua um exemplo no qual o provérbio não é validado, não teve de forma alguma em vista a desmistificação do provérbio.

    Tudo isto para dizer que houve algum aproveitamento sensacionalista do artigo para mandar o bitaite (mea culpa), mas que o principal objectivo é mostrar ciência de forma prática, interessante e pedagógica para não-cientistas 😛

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