"Arreia as calças! Arreia-as tu! Arreia as calças gabirú".
Esta foi a maneira mais cómica que encontrei de iniciar um artigo sobre um assunto sério; um quase atentado do nosso governo ao sistema de ensino e à carteira dos portugueses.
Não, isto não é nenhum artigo de cariz político (até porque eu não tenho preferência política, apenas quero que façam o melhor para o país), mas sim a demonstração da minha tristeza para com este governo no que toca à tecnologia.
O nosso governo, comandado pelo Engenheiro Robô Sócrates – o Primeiro Ministro tecnológico – está empenhado em levar a tecnologia às escolas, através da iniciativa "e.escola", e isso é de louvar.
Mas não é de louvar o facto de não realizarem um concurso público (pelo menos não é do meu conhecimento a realização de um concurso público), descartando por completo as empresas nacionais na área da tecnologia e as universidades. Os nossos governantes decidiram que era melhor baixar as calças e ir ter com a Microsoft que, por exemplo, realizar um concurso público aberto às empresas e universidades nacionais e, porque não, também aberto às empresas estrangeiras.
Assim sendo, o Estado vai adquirir 240 mil licenças do Microsoft Windows Vista Home Basic e do Microsoft Office Home 2007 e Microsoft Office Student 2007. Duzentos e quarenta mil! É um número grande.
Agora imaginem que o Estado paga as cópias ao preço exorbitante do mercado.
Se uma cópia do Microsoft Windows Vista Home Basic custar à volta de €200, dá um valor na ordem dos €48 000 000.
Agora vamos ao Microsoft Office; se uma cópia custar, mais ou menos, €180, as 240 mil cópias custam algo como €43 200 000.
Se juntarmos tudo, dá uns assustadores €91 200 000. Tudo isto dos nosso bolsos.
Fantástico. Agora juntem o preço dos computadores quase topo de gama que vão ser precisos para correr o Windows Vista e o Microsoft Office. Já estão assustados o suficiente? Estão lixados, porquê ainda há mais.
Temos a iniciativa "e.professores", para a qual vão ser adquiridos 150 mil computadores. Como é óbvio, os professores vão ter que utilizar o mesmo software dos alunos, para não haver problemas na passagem do conhecimento. Se assim for, são mais 150 mil cópias do Windows Vista e do Microsoft Office 2007. Façam as contas. Temos vários projectos portugueses ligados a software; alguns desenvolvem sistemas operativos, como é o caso do projecto Caixa Mágica.
Temos a Universidade de Évora, que está por detrás do Alinex. Estes dois projectos, entre outros projectos nacionais, são sólidos, estáveis, seguros e, acima de tudo, gratuitos! Gratuitos, pah! Quer dizer à borla!! Não têm que pagar uma exorbitância em licenças. Se apostassem na tecnologia nacional, bem que podiam agarrar o dinheiro que ia sobrar, em comparação com o dinheiro que vão gastar, para investir na saúde ou até mesmo numa campanha de sensibilização dos condutores. Mas para quê poupar dinheiro e ficar melhor servido… Isso são coisas de países de terceiro mundo.
Nós, em Portugal, gostamos de ter um programa chamado Novas Oportunidades, mas não as gostamos de dar. Fica só o nome, porque é fashion. Portugal não tem necessidade de dinamizar a economia nacional; a nossa economia é a mais sólida da Europa, não precisamos de investimento nacional. O próprio governo, pelas mãos do Ministério da Educação e do Ministério da Justiça, tem promovido a adopção do software livre, mas depois vem o Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações fazer um brilharete destes. Com software livre podíamos ter o mesmo, aliás, ainda mais, que com a Microsoft.
O software não custaria nada, apenas teriam que despender verbas na compra de computadores e na formação. Imaginem o que não se poupava. Andam sempre a dizer-nos para apertar o cinto, mas eles andam sem ele. Fico triste por estas coisas acontecerem.
A parceria com a Microsoft não é à toa. Não se esqueçam que Portugal está quase a assumir a presidência europeia e que a Microsoft tem tido bastantes problemas com a UE. Eu não sou geek nem nerd, nem sequer um wanna be. Sou apenas um utilizador.
E, como utilizador, digo que o governo fez uma péssima escolha. Só espero, depois destes artigo, não ser suspenso das minhas funções de desempregado. Deixem a vossa opinião sobre este assunto.
Deixe um comentário